Experimentar também se aprende
Existe uma diferença enorme entre provar um alimento e decidir que ele não é para você.
[PV] Chega uma fase em que a gente para de perguntar se o filho levou casaco e passa a perguntar o que ele comeu. Meu filho viajou na semana passada e falamos todos os dias sobre as experiências gastronômicas que ele teve por lá.
Foi sopa de lentilha, centolla, Doritos de um sabor diferente (bem laranja, segundo ele) e a degustação de uma bala Tic Tac bem barulhenta no telefone comigo, porque sabe que eu acho péssima para os dentes. Não tem nada de uma alimentação perfeita. Muito pelo contrário.

Uma das coisas mais importantes que tentei ensinar aos meus filhos não foi cozinhar, nem comer verduras, nem montar um prato colorido. Foi experimentar.
Não experimentar porque “tem que comer”, porque faz bem à saúde e, muito menos, porque eu sou nutricionista e queria filhos que comessem de tudo. A verdade é que não existe alguém que coma de tudo. Todo mundo tem uma cebola, um coentro ou uma azeitona que prefere deixar de lado. Eu deixo de lado o bife de fígado, a dobradinha, o tomate seco…
Ninguém nasce gostando de azeitona, café, cogumelos ou lentilha. Nosso paladar é construído ao longo da vida, e essa construção depende de exposição, repetição e, principalmente, de curiosidade. Existe uma enorme diferença entre provar e gostar. Você pode experimentar e concluir que realmente não é para você. Mas isso leva um tempo. Até hoje ofereço berinjela para o Felipe kkkk. Ele já está com 19 anos.
Na infância, espera-se que muitas crianças passem por uma fase de maior seletividade alimentar. Entre os dois e os seis anos, por exemplo, é comum que alimentos antes aceitos sejam recusados e que o repertório pareça diminuir. Isso faz parte do desenvolvimento e, na maioria das vezes, é uma fase. Mas nem toda seletividade é igual. Para algumas crianças, a dificuldade vai muito além de uma fase. Ela pode persistir, causar sofrimento, limitar a vida social e familiar e, em alguns casos, fazer parte de um transtorno alimentar, como o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE/ARFID), ou estar associada a alterações sensoriais e outras condições que merecem avaliação.
Por isso, é tão importante não cair em dois extremos: não tratar toda criança como “difícil para comer” e não acreditar que toda seletividade vai passar sozinha.
Quando há sofrimento, uma lista muito restrita de alimentos, ansiedade diante de novas comidas ou prejuízos nutricionais e sociais, procurar ajuda faz toda a diferença. Nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e pediatras podem trabalhar juntos para ampliar esse repertório de forma respeitosa e segura.
A infância e a adolescência são momentos privilegiados para a gente ensinar a experimentar. E experimentar aqui não significa comer um prato inteiro nem insistir até a criança chorar. Muito menos transformar a mesa em uma disputa. Significa apresentar alimentos diferentes, permitir que a criança veja, toque, cheire e prove no seu tempo, e perceber que ela não precisa gostar de tudo para conhecer o mundo. Às vezes ela vai só lamber.
Porque o objetivo nunca foi formar alguém que come de tudo. Nem precisa ser. O objetivo é formar alguém que não tenha medo do novo. Quanto mais repertório alimentar construímos ao longo da infância, maiores são as chances desse adolescente/adulto sentar em um restaurante, viajar para outro país ou conhecer a comida da casa de um amigo e pensar: vou provar.
Eu sempre falei: você pode não gostar, mas tem que experimentar. A experimentação se tornou uma brincadeira aqui em casa. Sem muitas cobranças, sem ser mais uma “tarefa do dia".
Quanto antes entendermos o que está acontecendo, maiores são as chances de ampliar esse repertório alimentar e tornar a relação com a comida mais leve.
No fim das contas, experimentar é muito mais do que um ato alimentar. É uma forma de desenvolver a curiosidade e ampliar o repertório.
Conheço de perto pessoas que lutaram a fundo nessa batalha. Uma delas foi minha irmã, que tem gêmeos, e, por muito tempo, minha sobrinha foi altamente seletiva. Era a fase da cenoura e da carne pura (sem molho), a fase da sopa, a fase do almoço que voltava inteiro na lancheira. Hoje recebo fotos dos pratos dessa mini adulta que mora fora e come lindamente. Fico TÃO feliz. Não só por ela ter vencido essa batalha, mas também por ter essa “autonomia alimentar” para preparar as próprias refeições.

💭 Um abraço apertado para todas as famílias que estão na luta da seletividade e persistindo. Se quiser compartilhar com a gente, vai ser uma alegria.
Beijos,
PV




Eu me considero uma experimentadora sem preconceitos, maaasss.... a verdade é que não tive que enfrentar nada assim muito exótico... comi alguns animais diferentes por aí e adoro fígado, dobradinha, moela, etc. Minha restriçao passa pelo apimentado, não vejo sentido num nivel de picante que domine tanto que não permita sentir o gosto de nada mais... e fermentados/encurtidos tipo pickles, chucrut, etc. Mas ainda lembro que levei anos acreditando que eu não gostava de bacalhau, nunca comia (preferia até um ovo frito), até que experimentei de novo lá pelos 15/16 anos e resolvi recuperar o tempo perdido! Achei uma delícia! kkkkk
Adorei este texto porque concordo com você que experimentar é realmente o melhor da vida não só na alimentação mas em tudo que surgir curiosidade. Quando eu era pequena minha mãe oferecia todos os legumes e as vezes não queria porque não gostava do aspecto mas ela tinha uma frase que hoje eu dou risada mas na época não entendia.
“Filhinha que abóbora ? E eu dizia que não obrigada e ela respondia
“Mas vai comer “ e eu perguntava , mas porque perguntou ?
“Para saber se gostaria de experimentar “
Hoje sou muito grata a ela por tudo que experimentamos juntas , pelo que me ensinou e pelo que passei para minhas filhas. Hoje tanto a Vivi como a Juju comem de tudo e sempre experimentando coisas novas .